NOVO ESCURO

Novo, o novo velho

Partido Novo completa 7 anos com legado negativo para o meio ambiente. Bancada teve o pior desempenho socioambiental na Câmara dos Deputados

Apesar de defender um “país sustentável’, com “redução do desmatamento ilegal”, “energia limpa” e “economia verde”, o partido Novo fecha seu primeiro ciclo no Congresso Nacional e à frente de um governo estadual com ações consideradas negativas para o meio ambiente.

Passados sete anos desde seu registro, o partido cresce a cada eleição defendendo bandeiras como a diminuição do papel do Estado na economia e a redução dos impostos. Na prática, essa agenda se traduz no enfraquecimento da legislação ambiental, na liberação de atividades econômicas em áreas de conservação e em menos encargos para infratores.

Estreante no Congresso com oito deputados federais eleitos em 2018, o Novo se aproxima do fim da legislatura com o título de pior partido para a causa socioambiental na Câmara, segundo o Ruralômetro 2022, ferramenta desenvolvida pela Repórter Brasil que avalia o desempenho dos parlamentares em questões ligadas ao meio ambiente e aos povos do campo. Em outra ferramenta de monitoramento parlamentar, o Farol Verde, do Instituto Democracia e Sustentabilidade, o Novo também apareceu entre os partidos mais antiambientais.

Um dos projetos de lei apresentados pela sigla na Câmara deixa claras as prioridades da legenda. Nele, o deputado Vinicius Poit (Novo-SP) – candidato a governador de São Paulo – propõe acabar com a taxa cobrada para uso da motosserra, medida que foi incluída no Código Florestal para coibir o desmatamento.

Embora admitindo que o Ibama continue registrando os equipamentos e seus compradores e vendedores, Poit justifica que a taxa prejudica agricultores que usam a motosserra como ferramenta de trabalho. Apesar de críticas na Comissão de Meio Ambiente da Câmara, o texto foi aprovado e aguarda avaliação das comissões de Finanças e de Constituição e Justiça.

Já nas votações de projetos cruciais para o meio ambiente no plenário da Câmara, os oito deputados do Novo se colocaram ao lado da bancada do agronegócio, dos políticos do centrão e da base de apoio do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Candidato a governador de São Paulo pelo Novo, o deputado federal Vinicius Poit propôs projeto para acabar com taxa cobrada para uso de motosserra (Foto: Reprodução/Facebook)

Foi o caso de três propostas que fazem parte do chamado “pacote da destruição”, que passaram com facilidade na Câmara: o PL 6.299/2002, ou “PL do Veneno” (que facilita a entrada no país de agrotóxicos, incluindo os comprovadamente cancerígenos); o PL 2633/2020, conhecido como “PL da Grilagem” (que altera a fiscalização fundiária e amplia a regularização de terras ocupadas ilegalmente); e o PL 3729/2004, ou Lei Geral do Licenciamento Ambiental (que simplifica o licenciamento e enfraquece a fiscalização).

“São votos contrários à posição dos ambientalistas”, avalia Suely Araújo, consultora de políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama.

Em nota enviada à Repórter Brasil, a bancada do partido disse que “possui princípios e valores” com “amplo respeito ao meio ambiente”, e que o apoio às medidas citadas refletem essa visão. Segundo os deputados, o projeto dos agrotóxicos moderniza a legislação e evita a concentração de mercado. “Os defensivos têm sido historicamente fundamentais para o controle de pragas e pestes e, portanto, para evitar a perda de alimentos”, diz a nota.

A bancada defende também o PL 2.633/2020 por permitir o “uso de tecnologia de georreferenciamento no reconhecimento do direito de propriedade rural a ocupantes em terras da União”, facilitando o acesso de agricultores a financiamento. Já sobre o PL que altera o licenciamento, o partido diz que “o Brasil começou a estabelecer em lei um marco nacional de normas gerais para o licenciamento ambiental, buscando equilíbrio entre visão ambiental e econômica” (veja o posicionamento na íntegra).

Em outro caso, o Novo se isolou na votação do projeto de lei que estabelece os direitos das populações afetadas por barragens e cria responsabilidades socioambientais para as empresas encarregadas pelos empreendimentos. A votação se deu cinco meses após o desastre de Brumadinho (MG), que vitimou 270 pessoas em 2019. Com a comoção gerada pelo episódio, o projeto teve forte apoio na Câmara, mas a bancada do Novo foi a única a rejeitar a proposta de forma unânime.

“É um tipo de liberalismo que transfere o custo ambiental para a sociedade como um todo e para o Estado, ao tirar a responsabilidade do empreendedor”, diz Araújo.

Na época da tragédia de Brumadinho, o ex-ministro do meio ambiente Ricardo Salles usou o episódio para defender mudanças no licenciamento ambiental, alegando que era preciso facilitar o processo para empreendimentos de menor impacto a fim de se poder olhar com mais rigor para obras de alto risco. Na prática, pegava carona no desastre para defender uma menor fiscalização ambiental para atividades como a agricultura.

Hoje no PL, Ricardo Salles era do Novo quando foi escolhido para ser ministro do Meio Ambiente, cargo em que promoveu desmonte da fiscalização; Novo o expulsou em 2021 (Foto: Reprodução/Facebook)

Salles era, desde 2018, filiado ao partido Novo, de onde foi expulso em maio de 2020. Ele ganhou notoriedade durante a pandemia, quando sugeriu aproveitar que a imprensa estava concentrada no coronavírus para “passar a boiada” – uma alegoria ao desmonte ambiental que ajudou a implementar durante o governo Bolsonaro. Sua gestão no Ministério do Meio Ambiente foi marcada pelo aumento das taxas de desmatamento e das queimadas e pela defesa da mineração e da agropecuária em terras indígenas. Salles deixou o cargo em 2021, investigado por um esquema de exportação ilegal de madeira. O Novo declara que não indicou Salles para a pasta nem teve ingerência sobre sua gestão.

“Eu tinha esperança de que o Novo pudesse se tornar aliado da questão ambiental, trazendo novas perspectivas, como faz a direita europeia. Mas a bancada deles se alinhou com o governo e com a visão de que as regras ambientais atrapalham os negócios, mostrando que ainda falta muito para o liberalismo brasileiro incorporar a pauta ambiental”, disse Raul Valle, diretor de Justiça Socioambiental da WWF Brasil, em entrevista à Repórter Brasil.

Segundo Valle, a direita brasileira costuma se opor à proteção do meio ambiente por considerar a questão uma “pauta de esquerda”. Isso não ocorre em países como a Alemanha e a França, onde a preocupação ambiental já entrou na agenda dos partidos não progressistas. “Boa parte dos avanços ambientais nesses países foram em governos conservadores.”

 

Repórter Brasil solicita desde agosto um posicionamento ou entrevista com membros do partido para comentar sua atuação socioambiental, mas não recebeu resposta até o momento.

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